Dave Grohl Q&A: Por que o rock nunca morrerá e por que 2011 foi o melhor ano da vida dele
jan 2012 11

Veja a entrevista completa que o Dave Grohl cedeu para a Billboard.

 

“Agora, o clima da música atual não é diferente do que era em 1991, pouco antes do Nirvana se tornar popular,” nos conta o líder dos Foo Fighters.


Tradução: Giovana Moretti

Revisão: Karina Diaz (Karina Marigold)

 

Depois de 17 anos à margem do superestrelato do rock, os Foo Fighters agora se encontram, de várias formas, liderando o cenário do ressurgimento do rock moderno. 2011 foi um ano reafirmador para os Foos em muitas frentes, conduzido pelo sucesso do aclamado sétimo álbum de estúdio da banda, “Wasting Light”, e o estouro da turnê mundial, bem como as seis indicações ao Grammy e inclusive a Álbum do Ano.

Enquanto pensa sobre o que ele chama de “melhor ano de sua vida”, Dave Grohl pondera sobre a Billboard em relação à saúde do rock n’ roll, o que há de errado com a indústria musical, e por que estes “cinco idiotas” podem, na verdade, simplesmente representar algo maior do que apenas uma banda.

 

Parabéns pelo ano incrível.

Grohl: Tem sido um bom ano, 2011 foi muito bom para mim. Eu estava na festa de Ano-Novo e alguém me perguntou como foi o meu ano, e eu disse que, honestamente, acho que 2011 foi o melhor ano da minha vida inteira. De verdade.

 

Você e os Foos estiveram no meio de todo esse ambiente do rock durante o ano todo, então, qual é sua opinião sobre a “saúde” do rock?

Sempre existirão bandas de rock, sempre existirão jovens que amam CDs de rock, e sempre existirá o rock n’ roll. Eu viajo pelo mundo todo e toco música, e é fácil pensar que o rock n’ roll se foi quando você está num país como os EUA. Nós acabamos de voltar da Austrália, onde fizemos uma turnê e também na Nova Zelândia e nós tocamos para 40 ou 50 mil pessoas por noite, lotando os estádios. Para mim, isso significa que o rock n’ roll ainda vive e está bem. O que nunca acabará é aquela conexão que você faz com uma banda ou uma música onde você é movido pelo fato que são pessoas de verdade tocando. Você faz aquela conexão humana com uma música como “Let It Be” ou “Long and Winding Road” ou uma música como “Bohemian Rhapsody” ou “Roxanne”, qualquer uma dessas músicas. Elas soam como se fossem pessoas tocando.

Nos EUA, o rock n’ roll não está à frente do cenário musical tal como está no resto do mundo. A Inglaterra é outro país onde bandas de rock fazem muito sucesso: você os ouve no rádio, eles têm hits e tocam em estádios, e é quase como se tudo isso fosse maior do que nunca. Mas por uma razão qualquer, aqui nos EUA não há muito foco nas bandas de rock. Eu não sei o que é, mas é um dos poucos países no mundo onde o rock não é grande coisa.

 

Você tem discutido sobre isso com a banda e a sua equipe?

Não. Uma das razões pelas quais nós ainda somos uma banda, ainda fazemos álbuns e ainda fazemos sucesso é porque nós não prestamos atenção em nada disso. Nós temos nosso próprio estúdio, nosso próprio selo, e nós fazemos tudo de acordo com as nossas regras. Para nós, a coisa mais importante é estar satisfeito por fazer parte da banda, e uma vez que terminamos de gravar um disco, nós o damos para o resto do mundo. Mas nós sempre vivemos dentro dessa linda bolha, que é o Foo Fighters. Você não pode estourá-la, você não pode mudar o que fazemos, porque nós tentamos mantê-la inteiramente real e pura. Nós vimos diversos estilos irem e virem ─ nu metal, skinny ties  e nós ficamos de cabeça baixa e fizemos nossas coisas por tanto tempo que nada disso realmente importa, e por fim, o que acontece é que nós acabamos fazendo álbuns aos quais as pessoas se conectam porque eles são trabalhos reais.

Mas não, isso nunca foi um problema. Por anos, e geralmente uma vez por ano, você vê uma banda de rock que vem e diz: “Nós vamos salvar o rock n’ roll”, e então você vai ler um artigo perguntando, “O Rock Está Morto?” Ele nunca foi embora do meu mundo. Pergunte aos caras do AC/DC se eles acham que o rock n’ roll está morto.

Por você ter coisas como “American Idol” e ter estações de rádios que tocam músicas feitas inteiramente por computadores, é fácil esquecer que há bandas com pessoas de verdade tocando instrumentos de verdade e que são incríveis. Para os fãs, eu não acho que o rock foi embora de forma alguma. Eu não conheço muitas pessoas que deixaram de ouvir rock n’ roll. Ele parece estar muito vivo, e bem.

 

Quando você sai de sua bolha e entrega esses vários hits, você se surpreende quando as rádios ficam por trás disso e quando as pessoas respondem a isso da forma como fazem?

Você tem que entender, nós somos uma banda realmente simples. Nós achamos que somos uma merda e nós tentamos mesmo fazer bons álbuns, e nós praticamos. Nós não nos sentimos como se fôssemos a maior e melhor banda do mundo. Apenas sentimos como se ainda fôssemos aqueles cinco idiotas em turnê numa van há 17 anos; isso não mudou. Mas houve um tempo, uns 10 anos atrás, que nós seríamos convidados a tocar em alguma premiação ou festival de rádio ou algo do tipo, e nós aparecíamos e éramos a única banda de rock. Aqui nós estamos lidando com artistas pop como as Pussycat Dolls ou algum rapper novo, e então nós levantamos e quebramos tudo com nossos instrumentos. E eu comecei a me perguntar, “Por que nós estamos aqui?” Eu me perguntei se eles simplesmente precisavam de uma “banda de rock”  ”Quem é uma banda de rock? Chame os Foo Fighters.” Então eu comecei a pensar que talvez nós representássemos alguma coisa para as pessoas; pelo menos quando elas ouvem o nome “Foo Fighters” elas pensam em rock n’ roll, então eu pensei, “Uau, isso é legal.” Ao longo dos anos em que fiz shows, eu olhava para o público e via jovens com camisetas do Nirvana e seus pais com camisetas do Foo Fighters  o que parece ser paradoxal  e eu vi bigodes e crianças em seus primeiros shows. Nosso público se tornou tão diverso que eu pensei, “Cara, eles só querem ver um show de rock.” Vá assistir Bruce Springsteen. Tom Petty, AC/DC, Roger Waters, qualquer um desses caras. Vá ver o Pearl Jam ou o Soundgarden. Eu fui assistir ao Soundgarden quatro ou cinco meses atrás; não fui na área VIP, fiquei lá embaixo e fui esmagado bem na frente do palco, dancei e suei com um monte de gente que eu não conhecia por uma hora e 45 minutos.

Não acho que há nada de errado com o rock. Ele é negligenciado. E agora, o clima musical atual não é diferente do que ele era em 1991, pouco antes do Nirvana se tornar popular. O final dos anos 80 foi cheio de pop superproduzido que os jovens não tinham nada a aproveitar eles não tinham como se conectar com essa banda de hair metal cantando sobre strippers em uma limusine em Sunset Boulevard. Quem consegue se relacionar a isso? Então você tinha um monte de merda de pop formulado e estressante, e a música era chata. E então um monte de bandas com jovens loucos entrou na MTV e o rock n’ roll se tornou foda de novo. E eu acho que isso está para acontecer. Alguma coisa vai ter que ceder. Não pode ter apenas concursos de música na televisão pelo resto de nossas vidas. Não pode ter as mesmas músicas em todas as estações de rádios pelo resto de nossas vidas. Não pode ter música feita inteiramente por computador e pessoas falando demais sobre isso pelo resto de nossas vidas. Não pode ser desse jeito, não vai ser.

Eu me sinto como um músico e uma parte desse cenário do rock n’ roll, eu tenho a responsabilidade de fazer essa merda virar realidade, e não pensar sobre toda aquela outra merda, não pensar em fazer música por dinheiro ou promover música pela moda, pelos concursos. Minha responsabilidade é fazer o que é real. Uma vez que você começa a fazer a coisa certa, ela vai melhorar.

Alguém me perguntou recentemente, “Qual você acha que é o problema da indústria musical?” Eu disse, pegue o CD da Adele, por exemplo. É um disco incrível e todo mundo ficou tão chocado que se tornou um fenômeno. Eu não me choquei. Você sabe por que o disco é tão foda? Porque ele é realmente bom e é algo real. Quando você tem uma artista cantando sobre algo que é real e ela é realmente talentosa, isso merece toda a repercussão que tem, é um ótimo disco. Agora imagine se todos os discos fossem bons desse jeito. Você acha que só um seria vendido? Claro que não! Todos eles seriam vendidos. Se todos os discos fossem tão bons, a indústria da música estaria pegando fogo, mas eles não são. Um monte de gente está promovendo discos que são apenas jogue-os-na-parede-e-veja-se-grudam, uma merda sem significado algum. Todo mundo tem a responsabilidade de fazer a coisa certa e promover artistas que tenham algum significado.

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