abr 2011 04

Foo Fighters toca em evento beneficente do desastre de Queensland.

Fonte: The Vine
Tradução: Paulo Vitor

Atrás do Riverstage, no fim do jardim botânico da cidade, o Rio Brisbaine corre silenciosamente pela noite. Enquanto os barcos passam, seus faróis refletem na água que serpenteia pela cidade. Alguns meses antes, aquele rio subiu demais; por uma semana, em meados de janeiro de 2011, Brisbaine parou completamente enquanto seus cidadãos corriam para se salvar e depois para tentar salvar o que sobrou dos estragos feitos. Foi uma experiência assustadora e surreal. Até hoje esse é um assunto comentado entre amigos e desconhecidos. Por causa da proximidade entre cidades, cada cidadão de Brisbaine ou foi afetado ou conhece alguém que foi. Reparar os danos vai levar mais tempo e dinheiro do que eles dispõem. Imediatamente após os acontecimentos, a Premier abriu um fundo de doações com os lucros voltados para aqueles que perderam seus pertences, suas casas e seus entes queridos.

Como de costume, foram realizados vários shows beneficentes em casas de shows pelo estado e por todo o país. Algumas semanas atrás – esse foi o maior evento beneficente realizado em favor de desastres na Austrália desde Sound Relief em Melbourne, em 2009 – foi anunciado : a banda de rock americana Foo Fighters encabeçaria um evento incluindo bandas como You Am I e a adorada banda de Indie Pop de Blue Mountains, Cloud Control, e um a apresentação com membros escolhidos a dedo pelo frontman dos Foos, Dave Grohl (aparentemente, ele fantasiou um grande quarteto de rock chamado Giants of Science). Com o ingresso a $99 por pessoa, 9.000 ingressos se esgotaram em minutos. Fazer doações a vítimas de desastres naturais parece ser bem mais legal se no pacote incluir um show de rock.

Uma vez lá dentro, os Foos – que tocaram na Nova Zelândia semana passada por circunstâncias parecidas, em suporte aos afetados pelo terremoto Christchurch – disponibilizaram alguns produtos oficiais no balcão de mercadorias : Camisetas ($40) e pôster ($30), ambos desenhados e impressos exclusivamente para esse show. Todos os procedimentos são de acordo com o apelo da Premier. Os produtos limitam-se a 350 pôsteres contados à mão pelo artista, que em seu design inclui o rosto dos cinco integrantes em volta do contorno do estado de Brisbaine com o logo do Foo Fighters no meio; abaixo está a cidade de Brisbaine vista do horizonte (curiosamente os desenhos quase não se parecem com eles na vida real). A meu pedido, o rapaz atrás do balcão checa alguns papéis e me diz que 1.783 camisetas foram estampadas para esse show. Já que eles estão com as vendas bem movimentadas, é provável que sobrem bem poucas ao final da noite.

Mesmo com o sétimo álbum prestes a ser lançado, o ‘Set List’ do Foo Fighters essa noite é essencialmente suas músicas mais famosas. Que é o que todos esperavam, é claro. Eles não desapontaram; pelo contrário, só por estarem ali, eles estão aumentando significativamente a opinião dos australianos de que eles são caras legais. Aparentemente, a banda bancou todas as responsabilidades fiscais relacionadas aos dois shows, incluindo os vôos e os custos para voar com 20 toneladas de equipamento pelo Pacífico (de acordo com o jornal local ‘The courier-mail’ no Sábado). Meu respeito (mais cedo, o frontman do You Am I, Tim Rogers, contou uma piada sobre como ele falou merda pro Dave durante 25 minutos em uma festa a 19 anos atrás, enquanto o ainda baterista do Nirvana ouvia educadamente. Rogers diz que Grohl é a prova de que você não precisa ser um completo babaca para seguir em frente na carreira).

Essa noite não tem bar. Isso não foi avisado em lugar nenhum, que eu saiba, e eu nunca tinha visto isso antes no RIverstage. Claro, é um show para todas as idades, mas barrar os que vão lá pra curtir e beber parece estranho. Mesmo assim, pelo menos nossa atenção fica voltada para as músicas e não para a oitava lata de Mid-Strength. (pesquisando mais tarde, descobri que obter uma licença para bebidas alcóolicas teria diminuído a capacidade do local). Os cinco integrantes e o tecladista subiram no palco às 19:22 e tocaram por mais ou menos duas horas. Eles tem uma boa organização de palco : Todos os amps e a bateria de Taylor Hawkins estavam em uma linha perfeita, e o tecladista fica à direita de Taylor. Isso deixa Grohl  com bastante espaço para se movimentar;pés descalços e pronto para atacar, ele foi cada centímetro do mito em que se tornou nos últimos 15 anos como frontman. Seus companheiros de banda – o baixista Nate Mendel e os guitarristas Chris Shifflet e Pat Smear – preferem ficar em seus lugares e tocar as notas corretamente.

Enquanto eles tocam todos os singles possíveis, mais algumas outras faixas, eu penso em como eles podem ser os novos Eagles dessa era. Considerando que seu arsenal inclui algo como duas dúzias de hits, que a maioria dos cidadãos de países de primeiro mundo podem cantar junto competentemente, há poucas bandas nesse mundo que podem ser comparadas ao Foo Fighters. Não é difícil imaginar que daqui a 20 anos eles vão ter frequentemente suas músicas tocadas nas rádios de músicas antigas de 2031. Pessoas vão ouvir essas músicas e falar : “Ah, eu lembro quando esses caras eram legais e estilosos ! Eu lembro deles tocando no evento benifcente  em Brisbaine. Aqui, eu tenho a camiseta pra provar…” (supondo que em 2031 ainda existam estações de rádio).

Talvez a comparação ao Eagles seja equivocada – Grohl com certeza preferiria ser lembrado como um Led Zeppelin da atualidade; eles reinaram no cenário musical na época deles, e ainda são sinônimos de respeito, devoção e influência. Todos os três traços são familiares ao Foo Fighters em 2011. Você não escreve músicas como Everlong e Best of You sem imaginar 9.000 pessoas ou mais cantando em coro com você. O que é surpreendente no show é como ele está muito pouco ligado sentimentalmente à ocasião.

Grohl nos faz pensar o porquê de estarmos aqui, e como essa é uma ocasião especial, mas a maioria do tempo, parece só mais um show pra eles. O ritmo do show é estranho : depois de uma hora e meia de pura energia, a vibe cai bastante conforme o tempo vai passando, enquanto sacam algumas canções novas, faixas de álbuns e baladas. Ainda assim, os melhores momentos – como quando todo mundo está cantando junto com a preferência de Dave em esticar as vogais que rimam com ‘You’ e ‘Who’ – são realmente bons.

Mas os momentos sentimentais são acalentados, porque a maioria não estaria aqui se o Foo Fighters não fosse tido como uma ótima banda, boa parte graças a Grohl. E nesses momentos, quando ele devaneia nos Scripts e nos Riffs para falar o que vem à mente, são impressionantes :

“…Mas eu não liguei; sabem o porquê? Porque eu tinha a música, e isso era tudo o que eu precisava! E quando eu estava pra baixo, sabem o que eu fazia? Eu ouvia música. E quando eu estava feliz, sabem o que eu fazia? Eu ouvia música! E quando as pessoas precisam de ajuda… Eu não posso vir aqui e consertar seu telhado. Eu não posso vir aqui e limpar seu porão. Isso é tudo que eu sei fazer! E é por isso que estamos aqui, pra vocês, essa noite. [Longa pausa enquanto a plateia aplaudia] Se eu fosse um advogado, eu os ajudaria a processar a merda das empresas de seguro. Mas eu não sou tão inteligente. Isso é tudo o que fazemos. E essa noite é pra vocês, filhos da mãe…

 

Set List:

Bridge Burning
All My Life
Times Like These
Rope
Learn to Fly
My Hero
Up in Arms
Long Road to Ruin
Big Me
For All The Cows
Cold Day in the Sun
Enough Space
Generator
These Days
Stacked Actors
Skin and Bones
Breakout
White Limo
Monkey Wrench
Hey, Johnny Park!
Everlong

Encore:
The Pretender
Aurora
Best of You
This is a Call

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